A frase de Sade de que gosto tanto, de que a caridadezinha não passa de orgulho, e quem a pratica fá-lo apenas para se sentir boa pessoa, e portanto por motivos egoístas, aplica-se aqui também (a beneficência é mais um vício do orgulho do que uma verdadeira ostentação da alma; é por ostentação que se dão alívio aos semelhantes, nunca é com a pura intenção de praticar um acto bom). Já não te quero como namorado/a, mas vou fazer o favor de ser teu amigo/a, porque não suporto sentir-me má pessoa e causar-te esta dor. Eu, a isto, respondo que não, que nem pensar. Não quero ser amiga de um Corto Maltese qualquer que queira acabar comigo, muito pelo contrário, quero distância, silêncio completo, ruptura total, não pensar nele, não o ver, não saber se está feliz ou infeliz, casado ou solteiro, com filhos ou sem filhos, para eu poder andar para a frente com uma ajudinha dos meus (verdadeiros) amigos, como cantavam os sábios Beatles.
Aqui.

2 comentários:
Em relação ao caso concreto, cenas amorosas e isso, não sei, mas é só para avisar que essa retórica de "nós só queremos é ser boas pessoas aos nossos próprios olhos", que só conheço do Nietzsche, tem como corolário não ser irracional (como diria Hume) e ser moralmente aceitável e mesmo correcto, numa situação em que basta mexer o nosso dedo mindinho para, sei lá, ajudarmos a família esfomeada do andar de cima, e não o fazermos porque "nós só queremos é ser boas pessoas aos nosso próprios olhos" ou, sei lá, bastar mexer o nosso dedo mindinho para curar o puto do andar debaixo que sofre de leucemia e não o fazermos porque "nós só queremos é ser boas pessoas aos nosso próprios olhos", e assim sucessivamente, isto é, é uma excelente retórica com vista a nos tornarmos ainda mais cretinos e egoístas e do que já somos. Enfim, desculpa, de certeza que não é nada disto que uma ou outra queria dizer, eu é que estou farto de ver aplicados esses raciocínios nietzscheanos a tudo e a mais alguma coisa.
Falando por mim, a "caridadezinha" em análise será aquela aplicada em casos em que não está em causa a sobrevivência de alguém mas em casos em que queremos meramente parecer boas pessoas sem pensar realmente no bem-estar do próximo.
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