Estava num daqueles momentos de desabafar com o meu amor, como quem ataca e se queixa e reivindica ao mesmo tempo, a ver se ganha alguma atenção. A Maria João ia-se embora para Lisboa, num vestido que, não sei como, ainda conseguia realçar a beleza dela. E eu, pomposa mas sinceramente enciumado, comecei a enunciar o quanto me custava amá-la, dizendo que eram dois os custos que eu pagava com a dor do meu sangue: o ciúme e a preocupação. Levantei dois dedos. Mal falei, assaltou-me a minha inépcia aritmética. Um a um, fui somando todos os dedos da minha mão: o medo (de perdê-la), a minha dependência dela e a solidão, repentina e desconhecida, que ela me faz sentir quando se vai embora. Assim enchi os cinco dedos de uma mão. Mas, antes de avançar para a segunda, ela disse, mais feliz por ser amada do que infeliz por infligir tanto sofrimento escusado, que “afinal não bastam dois dedos”, como quem diz que “não sabes contar”, mais o choque apaixonado de se dar conta que é a primeira vez que eu conto o meu amor. Como quem não sabe quanto ama – ou sofre. Só não continuei pela outra mão fora – da solidão para a saudade e daí para a ocupação desnecessária de tempo de alma – pela vergonha de ter dito que eram dois os custos e de ter chegado, de imediato, aos cinco. Custa muito o amor. Não vale a pena; não é um bom negócio. Mas, como não se pode escolher nem decidir nem pensar nisso, até acaba por ser. Mais se perde em nunca ter ganho.
para nos fazerem ver logo desde pequeninos que os supostos bons da fita são, na maioria das vezes, uns sonsos estuporados e que os alegados vilões muitas vezes não passam apenas de uns palermas desajeitados.
com o cliente que me dá os parabéns por um trabalho que fiz ou com o automobilista que liga os 4 piscas para me agradecer a passagem.
(Nota: o post anterior sobre a triste frase do provável futuro ministro das Finanças foi apagado automaticamente pelo Blogger devido a um problema no sistema. Mas ainda bem pois era patético demais.)
no Expresso era aquele cheiro a rotativas a alta velocidade até terem tido a triste ideia de porem o Mário Crespo a escrever crónicas. E, por falar nisso, aproveito para lembrar com saudades as de José Manuel dos Santos e Luís Fernando Veríssimo na revista Actual, cujos novos cronistas deixam muito a desejar (excepção feita ao Pedro Mexia).
Das ervas daninhas: o que dá menos trabalho é o que resulta melhor.
Das plantas em que depositámos maiores esperanças: quando não pegam ou simplesmente sucumbem não há terra boa, fertilizantes ou dedicação que lhe devolva o viço.
do Luís Pedro Nunes, mas gostei de o ouvir há dias na Radar, no programa Fala com ela, a confessar que passou a gostar do Lost in translation por causa de uma pessoa. Comigo acontece o mesmo, passar a gostar de coisas que não gostava (ou achava que não gostava) porque alguém especial me mostra que essa coisa pode ser vista ou ouvida ou pensada de outra forma. E não falo da cegueira da paixão, em que nos queremos tornar um espelho do outro só para nos sentirmos mais próximos dele. Falo de uma alteração de percepção genuína, como se essa pessoa nos tivesse feito "ver a luz". E, por isso, essa música ou livro ou filme passam a estar entre os nossos favoritos pela simples razão de terem ganho um novo sentido. Ou, simplesmente, um sentido.
Deixo uma das músicas que tocaram nesse programa, mas desta aprendi a gostar sozinha.