Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

O MEC deixa-me tão miseravelmente esperançada

com estas crónicas:

Os custos do amor

Estava num daqueles momentos de desabafar com o meu amor, como quem ataca e se queixa e reivindica ao mesmo tempo, a ver se ganha alguma atenção. A Maria João ia-se embora para Lisboa, num vestido que, não sei como, ainda conseguia realçar a beleza dela. E eu, pomposa mas sinceramente enciumado, comecei a enunciar o quanto me custava amá-la, dizendo que eram dois os custos que eu pagava com a dor do meu sangue: o ciúme e a preocupação.
Levantei dois dedos. Mal falei, assaltou-me a minha inépcia aritmética. Um a um, fui somando todos os dedos da minha mão: o medo (de perdê-la), a minha dependência dela e a solidão, repentina e desconhecida, que ela me faz sentir quando se vai embora.
Assim enchi os cinco dedos de uma mão. Mas, antes de avançar para a segunda, ela disse, mais feliz por ser amada do que infeliz por infligir tanto sofrimento escusado, que “afinal não bastam dois dedos”, como quem diz que “não sabes contar”, mais o choque apaixonado de se dar conta que é a primeira vez que eu conto o meu amor. Como quem não sabe quanto ama – ou sofre.
Só não continuei pela outra mão fora – da solidão para a saudade e daí para a ocupação desnecessária de tempo de alma – pela vergonha de ter dito que eram dois os custos e de ter chegado, de imediato, aos cinco.
Custa muito o amor. Não vale a pena; não é um bom negócio. Mas, como não se pode escolher nem decidir nem pensar nisso, até acaba por ser. Mais se perde em nunca ter ganho.

(Público, 27 de Maio de 2011)

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