é uma chatice e, pior ainda, inevitável. Acharmos que podemos viver sem rotina é uma ilusão. Ninguém consegue. Por mais vida social que se tenha, por mais viagens que se façam, a rotina, aquela rotinazinha que não mata mas mói está lá sempre presente. Os gestos automáticos, as conversas circulares, as manias inconscientes, as respostas mecânicas, as refeições repetidas. Mas o pior é quando a rotina se instala na nossa cabeça e passamos a acreditar que não pode ser de outra forma. Quando a vida se torna uma sequência de actos robotizados e as conversas não vão além da combinação desses actos. "Hoje és tu que vais às compras, precisamos de manteiga". "A minha mãe vai buscar os miúdos amanhã". Quando até os supostos gestos espontâneos não passam de uma rotina alternativa. "Amanhã podíamos ir jantar ao restaurante X", o mesmo onde se vai sempre que há essa oportunidade. Tudo pré-definido. Tudo igual a sempre. Achamos que é assim que tem de ser. A rotina toma conta de nós ao ponto de não reger apenas as nossas acções como também os nossos pensamentos. Está de tal forma entranhada que preferimos nem falar dela. Preferimos não a confrontar, não vá ela criar um espaço de espontaneidade que não saberemos como preencher. Tentar mudá-la também está fora de questão porque isso poderia revelar desejos e sentimentos que preferimos ocultar. Em nome dela podemos mentir, enganar, desrespeitar, mas Deus nos livre de a pôr em causa. Ela é a nossa única certeza. E, como diz o Astro aqui em baixo, muitas vezes confundimos certeza com felicidade.
4 comentários:
há algum tempo que acho que uma relação só pode funcionar "para sempre" se os membros dessa relação não viverem juntos. aquela coisa de usarem a mesma casa de banho [por vezes, ao mesmo tempo, ainda que por razões diferentes] é demasiado. e a mesma sala. o mesmo espaço íntimo, pronto.
O mais estranho é que a essa intimidade físico-espacial raramente corresponde uma intimidade real.
sim, se calhar até pode partir uma coisa da outra, na tentativa de resguardar um espaço íntimo [essencial ao ser humano], cada um vai-se afastando cada vez mais pela falta de espaço físico próprio. o casamento [nos moldes que temos actualmente] é contranatura. não pela monogamia, mas pela constante presença do outro, só pode acabar num défice de desejo ao longo do tempo.
A intimidade mesmo na casa-de-banho até poderá ser interessante, desde que não seja mera rotina... mas sim uma circunstância afectuosa.
Há rotinas a que não podemos fugir e que têm sentido, outras que nem isso. Pessoalmente, há rotinas que adoro, outras que só de pensar é um desgosto...
NN
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