Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Sofro, logo existo

Não sei a razão, e deduzo que não exista, pelo menos se a entendermos como a faculdade de estabelecer relações lógicas, mas a verdade é que gostamos de sofrer por amor. Não no sentido de o desejarmos, mas porque faz parte da natureza humana sentirmos algum prazer em termos pena de nós próprios. O nosso sofrimento é sempre maior e mais profundo do que o de qualquer outra pessoa, e isso é de certa forma dignificante. Andamos pela rua a dizer baixinho "sim, olha para mim, até pareço uma pessoa normal, não é?, só que nem imaginas o desastre que sou por dentro". Somos nós que temos a vida estilhaçada e isso dá-nos uma certa autoridade perante os outros. Ninguém sofre - ou sofreu ou sofrerá - como nós. E vai daí vamos alimentando esse sofrimento, para não corrermos o risco de perder a vantagem. As músicas tristes são sempre uma boa companhia nessas alturas. É só carregar no Play e torna-se impossível ver qualquer beleza no mundo. Tudo é negro e definitivo. O choro reflectido numa qualquer superfície espelhada costuma igualmente ajudar, e reler emails, sms ou cartas também funciona bastante bem. Ou procurar pela casa os presentes oferecidos. E, claro, relembrar aqueles momentos tão bons. Nessa altura, até os maus momentos parecem bons. E o pior que nos podem dizer é que o tempo cura tudo ou, ainda mais grave, que foi o melhor que nos podia ter acontecido. Mas quem é que quer saber disso se o dia amanheceu cinzento e com promessa de chuva?

8 comentários:

Anónimo disse...

Finalmente, alguma coisa mais que pele.

Ana disse...

Será isso um elogio? Vindo de um anónimo é difícil de perceber.

Anónimo disse...

É um elogio!

Ana disse...

Um elogio em forma de crítica será mesmo um elogio?

Anónimo disse...

É um elogio à evolução, talvez a uma mudança de pele.

Ana disse...

És tu Charles Darwin?

Anónimo disse...

Mas a pele é o maior orgão que existe! Como é que se muda de pele? De coração até que já se consegue, mas de pele (no seu todo) consegue-se? Há muita gente a mudar de pele, mas das sintéticas, podem ter as pintas e as cores que se adaptem...
Gostei do seu post, com a mesma "pele" de sempre.

Mónica disse...

"To love is to suffer. To avoid suffering one must not love. But then one suffers from not loving. Therefore to love is to suffer, not to love is to suffer. To suffer is to suffer. To be happy is to love. To be happy then is to suffer. But suffering makes one unhappy. Therefore, to be unhappy one must love, or love to suffer, or suffer from too much happiness. I hope you're getting this down." Woody Allen

 
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